Na Próxima Vez Que Estiveres Prestes A Segurar O Choro, Lembra Disso

Quem nunca ouviu as frases: “Agora não adianta chorar sobre o leite derramado!”, “Engole o choro!” e “Queres chorar com vontade?”.

A gente é condicionada desde cedo a segurar o choro e não expressar os nossos sentimentos de maneira completa — ainda mais os guris. Só que comigo, esta ‘filosofia’ foi sempre muito falível.

Eu sou uma chorona, desde de pequenininha. Daquelas que começava a ficar com a cara vermelha e os olhos enchiam de lágrimas quando alguém falava com um tom mais alto e ríspido.

Eu me lembro que quando eu fazia alguma coisa que o meu pai não gostava e ele me chamava atenção com aquela voz ríspida, eu começava a chorar imediatamente. Daí ele dizia: “Queres chorar com vontade?”, e eu tentava segurar e engolir o choro, mas aquela frase me fazia querer chorar mais ainda!

A verdade é que eu não gosto de confrontos e ataques. Sempre fui muito sensível neste sentido.

Claro que eu reagia de vez em quando, como na vez em que a minha mãe me deu um xingão e eu gritei de volta “Você jamais será Mufasa!”, corri e bati a porta do meu quarto atrás de mim.

Tá tá, eu tinha 5 anos. E amava a Kiara do Rei Leão 2.

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Enfim, conforme eu fui crescendo e tinha outras palavras para confrontar, que não envolviam falas memorizadas de uma personagem da Disney, quando eu reagia (o que não eram todas as vezes), eu começava a chorar no meio do meu xingamento, então ninguém me levava a sério.

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E eu continuei sendo tri chorona até a vida me confrontar com o diagnóstico de Polimiosite.

É engraçado porque eu não achava que eu podia ser durona, mas nessa época eu amadureci bem à frente da minha idade e vesti uma armadura para manter qualquer sentimento ‘fraco’ dentro de mim.

De fato, eu não queria mais ser chorona.

O início já foi bem difícil, porque os exames para chegar no diagnóstico foram físicamente e psicologicamente dolorosos. E o tratamento não era livre de dor também. Eu deixei algumas lágrimas caírem em certas ocasiões pela a dor física, mas não pela a dor emocional.

Eu queria ser forte. Forte por mim. Mas principalmente forte pelos os meus pais. Eu não queria que eles sentissem pena de mim. Eu não me dava nenhum espaço para refletir sobre aquela condição que me foi imposta. Eu não queria refletir. Eu queria lutar até ela ir embora do meu corpo.

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Mas não me entenda mal, hoje em dia, quando eu olho pra trás, ser daquela maneira me serviu muito! Eu não estaria contando essa história aqui, agora, neste formato, se eu não tivesse mantido a cabeça erguida e ignorado os meus sentimentos naquela época.

Só que não dá pra ser a vida inteira assim. Tanto não dá, que chegou uma hora que eu explodi. Eu desmoronei. E eu chorei todas as lágrimas que eu tinha reprimido durante aqueles anos. Eu estava infeliz e eu não queria mais vestir a armadura de “eu estou bem e feliz”.

É que nem quando a tempestade se aproxima e o céu fica nublado e as nuvens carregadas. Até dá pra ver um solzinho entre as nuvens de vez em quando, mas o sol só aparece de novo mesmo, depois que a chuvarada cai e as nuvens se dissipam.

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Obviamente, eu não tinha essa maturidade e conhecimento espiritual no momento em que eu desmoronei, mas eu pedi ajuda nas minhas orações. E a ajuda veio em forma de livros, áudios, vídeos, filmes, textos, conversas e pessoas incríveis. Eu me Entreguei Espiritualmente para Deus, Universo, Poder Maior, Fonte, Espírito (ou outro nome que tu usas) e tudo mudou.

Eu chorei. Eu mudei. Eu desconstruí. Eu amadureci. Eu chorei mais um pouco e só parei até me redefinir. E não pensa que parou por aí! Este processo é constante.

Eu aprendi que se a gente precisa chorar 1000 lágrimas para poder seguir em frente, a gente não vai conseguir seguir em frente chorando apenas 500.

Eu ainda sou chorona. Choro quando estou feliz, triste, com medo, cansada… Choro quando um filme me emociona. Choro, inclusive, escrevendo alguns dos meus textos. E embora eu não chore ou reaja com ataques quando alguém fala ríspido comigo, eu me entristeço, porque eu sei que se eu consigo me comunicar sem-violência, tu também consegues. É uma escolha. Mas isso é assunto para outro post.

Chorar é quase uma terapia. Chorar é libertar Resistência — o que a gente resiste, persiste. Às vezes eu ainda seguro o choro, porque é um hábito que eu adquiri, mas eu estou aprendendo cada vez mais a sentir o que eu estou realmente sentindo e transformar a minha dor em ensinamento.

Tu tens que sentir a dor, questionar o porquê que aquilo dói e transformar esta dor em algo positivo.

Chorar não é sinal de fraqueza, pelo o contrário. Chorar e não guardar traumas, ressentimentos e raiva é muito corajoso! É assim que a gente se desenvolve emocionalmente, espiritualmente, intelectualmente e mentalmente. E eu estou nesta busca todos os dias.

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Alguns meses atrás, se tu tiveste me dito que eu estaria aqui escrevendo esse texto para publicar online um dos meus momentos mais vulneráveis, e que até agora, apenas o meu marido sabia, eu teria achado que tu era maluquinha.

Mas depois da resposta linda e emocionante que eu recebi no post 10 Coisas Que A Polimiosite Me Ensinou Em 10 Anos, eu recebi este sinal de que é a Minha Verdade que cura. São as minhas palavras sem filtro e cheias de sentimentos reais e vulneráveis que ressoam contigo. E da mesma maneira que compartilhar a minha jornada cura, compartilhar a tua jornada também.

Então, compartilha nos comentários a tua história.

Muitas Terráqueas visitam este blog todos os dias, e a tua história pode fazer toda a diferença em ajudar elas a perceber a vida de uma perspectiva diferente.

Não te esquece, na próxima vez que o choro vier, deixa as lágrimas caírem. Chorar não é ‘coisa de mulherzinha’. Chorar é um ato de auto-acolhimento.

Com todo o meu amor,

Lina

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2 Comments Add yours

  1. livecanuto says:

    Também sempre fui super chorona. Te entendo totalmente.
    Hoje chorar é uma beleza pra mim. Quando estou muito estressada, quando algo ruim acontece. É o momento que digo: “Ok, vamos liberar tudo. Deixar tudo vir.”
    E como vem. Nossa. Mas sabe de uma coisa? Como também se vai! Eu choro até não dar mais. Penso tudo de ruim até não ter mais o que pensar. E aí me vem uma paz misteriosa. Uma paz seguida de otimismo. Reflito. Repenso. Me fortaleço. É como renascer a cada derrota. Renascer mais forte. Renascer mais “eu”. Não sei se faz sentido hahaha

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    1. Lina Levien says:

      Faz muito sentido! Eu sinto essa paz misteriosa também. Adorei a maneira como colocastes, porque é bem isso mesmo ❤

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