Art-ivismo & Ativismo

Esse texto foi escrito por Lina Levien originalmente para a plataforma do projeto Diversidade na Rua, da empresa Mercur.

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Você já parou para se perguntar como as lutas dos nossos ancestrais no passado fizeram toda a diferença para nós estarmos vivendo no presente? E como as nossas lutas hoje vão influenciar as futuras gerações?

Dá um senso de gratidão e dever, não dá? Todas as mudanças sociais e tecnológicas que ocorreram — e ocorrem — no mundo são frutos de ideias visionárias e ativismo, não de uma pessoa, mas de um grande grupo. E é por isso que a convite da Mercur, eu venho aqui hoje para escrever sobre como é necessário todos nós mudarmos as lentes pelas quais enxergamos de vez em quando. E começar a fazer parte não apenas das lutas pelos nossos direitos agora e no futuro, mas dos nossos semelhantes também.

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Lina Levien tem cabelos castanhos ondulados. Ela usa óculos e está com uma blusa preta floral. Ela sorri para a foto.

Primeiro deixa eu me apresentar:

Carolina é o nome que os meus pais me presentearam, porém online você vai me encontrar como Lina Levien. Tenho 23 anos e sou cadeirante há mais ou menos três. Nasci e fui criada em Pelotas, Rio Grande do Sul. Atualmente moro do outro lado do oceano em uma terra gelada chamada Alemanha. Meu blog é um sonho em movimento de criar uma plataforma digital socialmente consciente que tenha espaço para arte e discussões diversas, e que deseja às pessoas que expressem os seus melhores eus e criem intencionalmente uma vida com propósito.

Resumidamente é isso. *risos*

Eu confesso que até os meus 20 anos eu não via o mundo pelas lentes que eu vejo hoje, e essas lentes estão mudando constantemente a cada dia que passa. Quando eu me vi necessitando de uma cadeira de rodas por causa de uma condição de fraqueza muscular que me acomete desde os 15 anos, eu me senti uma fracassada e não tinha mais vontade nem de sair de casa. Não apenas porque eu queria que ninguém me visse “daquele jeito”, mas também porque a falta de acessibilidade é um problema real.

E eu me isolei.

Foi uma longa jornada de amadurecimento, aprendizagem e auto-compaixão para perceber o quanto eu estava perdendo com aquela atitude. Eu redefini a maneira como eu me vejo e nesse processo eu criei o blog que começou a impulsionar em mim a vontade de ajudar outras pessoas como eu.

Em Abril de 2017, eu comecei o projeto chamado “A Arte de Redefinir-se”, ele é uma forma de Art-ivismo. Uma das minhas metas com esse projeto é trazer a Moda de uma maneira que ainda é pouco vista na mídia — embora esteja aumentando. Por meio de fotografias e texto eu abordo sobre Moda Inclusiva de uma maneira pessoal, porém informativa para quem é cadeirante ou não.

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Lina está em sua cadeira de rodas. A cadeira está inclinada de forma que ela fique deitada. Ela está em um jardim, tem sol e árvores com folhas laranjas.

Conforme eu fui trazendo as minhas ideias online, eu entrei em contato com pessoas incríveis e saber da história delas me levou a querer fazer muito mais com a minha voz e a minha plataforma. Por isso, eu me sinto tão honrada de estar aqui compartilhando a minha história e a minha verdade com esse projeto lindo que é o Diversidade na Rua.

Diversidade e Inclusão vêm de muitas maneiras. Duas delas são Art-ivismo e Ativismo. Para mim, Ativismo é uma coisa que não vem fácil, eu sempre fui muito tímida, introvertida e sensível – uma manteiga derretida que chora por tudo.

Só que para fazer algo que eu nunca tinha feito antes, eu precisei me tornar uma versão de mim que eu nunca tinha sido antes.

E essa construção é constante.

Quando eu penso em Diversidade e Inclusão, eu não penso apenas sobre incluir pessoas com deficiências na sociedade. Eu penso também em construir ferramentas para que nós possamos ser, de fato, incluídos. São lugares acessíveis com rampas; são oportunidades de emprego; são materiais e aparatos que facilitam à quem tem limitações — um trabalho que a Mercur está co-criando lindamente; são escolas bilíngues especializadas em atender as necessidades que um deficiente auditivo precisa — e nesse caso a inclusão vai além do espaço físico; inclusão é garantia de acesso, permanência e qualidade de ensino para essas pessoas. Enfim, são tantas coisas! E a melhor maneira de trazer tudo isso à tona é co-criando.

Ninguém consegue adivinhar as dificuldades que nós passamos no dia a dia, mas podemos comunica-las. Nós sabemos das nossas limitações e temos algumas ideias sobre como desenvolver os nossos potenciais além delas, mas nós também precisamos – e queremos – ajuda. Muita ajuda. E é aí que entram as pessoas que não possuem uma deficiência, empresas, mídias e governo.

Quando eu desejo adicionar e colaborar com uma causa, eu sempre me pergunto como eu quero me comunicar através e em prol dela. Com ódio, medo, intolerância e ignorância que coloca um contra o outro; ou com amor, paz, respeito e sapiência que junta um com outro? Para mim, a segunda opção é muito melhor! E é por isso que eu acredito firmemente que o meu ativismo deveria ser assim também. Isso não significa que quando o prédio estiver pegando fogo, eu não posso gritar “FOGO!” e chamar os bombeiros para me carregarem escada abaixo junto com a cadeira de rodas (é, isso aconteceu comigo e te digo: foi inesquecível hahaha!). Mas o Ativismo não é vocal só nas ruas. Às vezes ele acontece dentro de salas de conversa e precisa de co-criação, organização e preparação para ser colocado em prática.

“Eu considero a não-violência, a compaixão em ação. Não significa fraqueza, encolher-se de medo ou simplesmente não fazer nada. Significa agir sem violência, motivado pela compaixão, reconhecendo o direito dos outros.” – Dalai Lama

Se você quer ajudar mas está se sentindo perdido e não sabe por onde começar, comece ajudando pelo menos uma pessoa ao seu redor, ou seja voluntário em algum centro na sua cidade. Não se cale quando ver um motorista que está estacionando na vaga reservada se ele não é cadeirante ou não está acompanhado de um. Não fique parado se você ver alguém precisando de ajuda.

Eu sei por experiência própria que mudanças são assustadoras porque nós não sabemos o que esperar delas. Temos dois caminhos: sucumbir ao medo do desconhecido e do que é diferente e manter o status quo, ou pior, partir para o ódio, intolerância e ignorância; e a segunda é aproveitar o momentum, e mesmo que algum medinho esteja ali presente, passar por cima dele e buscar o progresso, com amor, paz, respeito e sapiência.

Essa mensagem é para todos que querem começar a fazer a diferença de alguma forma. Ativismo não é sobre “eu”, é sobre “nós”. Não é ser apenas “anti-alguma coisa”. É sobre fazer parte dessa coisa de maneira ativa. Dando um exemplo bem simples que vai ilustrar o que eu quero dizer: você pode fazer a sua parte quando você recicla o lixo, economiza água e luz, compra conscientemente e etc., mas se o resto do país e do mundo também não fazem a sua parte, o ar e água vão ser contaminados pelo lixo e todos vão sofrer. Reconhece?

Por isso eu tenho um pedido e um convite para todos que estão lendo: Passem a mensagem adiante, e venham fazer parte dos Movimentos que buscam a Diversidade e a Inclusão. Sem pensar em raça, gênero, idade, credo, se possui deficiência ou não. Antes de eu precisar de uma cadeira de rodas, eu nunca tinha parado para pensar sobre como a mobilidade e acessibilidade dos Cadeirantes dependia de quem é Caminhante.

Na maioria das vezes nós estamos tão imersos nos nossos próprios problemas que não paramos para pensar o quanto as nossas ações — ou a falta delas — refletem no nosso semelhante. E todos nós perdemos com isso. Eu tentei várias vezes silenciar a Ativista dentro de mim, por achar que não tinha a ver comigo já que eu sou introvertida; ou que eu não aguentaria algum confronto e iria acabar chorando já que eu sou sensível; ou que não teria a coragem de expressar o que eu penso já que sou tímida.

Resumindo, eu achava que não tinha “bala na agulha”, como diz o meu avô.

Mas eu comecei a me educar. E não coincidentemente, as meninas da Mercur entraram em contato comigo. Muito obrigada, Fernanda, Rafaela e Camila pelo convite e pela oportunidade! A minha jornada de Art-ivista & Ativista está ainda no início e embora eu não use a minha voz falada, eu estou usando a minha voz escrita deliberadamente. Tem lugar para os extrovertidos e introvertidos!

Tudo começa pela vontade de conhecer o que é nos é desconhecido e diferente, pela vontade de se educar. O Diversidade na Rua está aqui para educar. Eu estou aqui para aprender e educar. E você?

Com todo o meu carinho,

Lina

Se você quer saber mais sobre a minha história: Lina & Carolina

Se você quer saber mais sobre o meu projeto: A Arte de Redefinir-se

lina-levien-ll-collective-pt

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